Thursday, July 19, 2012

Serendipity


Decidi abrir uma exceção e criar o primeiro post em português deste blog. Costumo escrever em inglês para praticar outra língua, mas hoje aconteceu algo diferente e gostaria de compartilhar.

Hoje, por felicidade do acaso, encontrei a revista "Cálculo -- matemática para todos" na banca. Foi uma surpresa muito feliz ler a carta ao leitor escrita por Márcio Simões, editor da revista. Em sua "carta", Márcio Simões faz uma crítica a educação brasileira, principalmente no que consiste ao ensino de matemática. Senti-me na obrigação de compartilhar com mais pessoas e para tanto, resolvi postar aqui. Fico contente em saber que ainda existem pessoas que pensam dessa forma.  

"Outro dia, entrei numa padaria perto do escritório, me sentei ao balcão e pedi uma xícara de café com leite e um pão com manteiga.

Enquanto esperava, abri meu livro de cálculo e meu caderno e passei a resolver exercícios. Um sujeito com roupas de operário da construção civil (macacão, botas e capacete) se sentou ao meu lado, fez o pedido e ficou olhando de esguelha meu caderno. Logo puxou conversa:

-- Você estuda engenharia?
Perguntei de volta:
-- Quem estuda cálculo estuda engenharia, é isso?

Passamos a conversar, e ele me contou que gostaria de estudar engenharia para conseguir uma promoção na firma em que trabalha, mas que tinha medo do cálculo. Seus colegas lhe diziam que é superdifícil. Eu disse o que sempre digo: não é verdade. E dei minha receita: compre um livro bom, desligue a TV, leia cada trecho com atenção, faça todos os exercícios, descubra meios de verificar sozinho se acertou ou errou, investigue por que errou um exercício, e por fim volte e releia o trecho do livro. Nessa releitura, com os exercícios já feitos e refeitos, as coisas ficam mais claras. Eu disse também que, embora o cálculo fosse útil na minha profissão (não entrei em detalhes), no fundo estudava cálculo por prazer. Ele riu; achou que eu estava brincando. Depois, quando insisti nisso, ele passou a me olhar como se eu estivesse mentindo.

Se um sujeito abre um romance na padaria, para ler enquanto toma o café da manhã, ninguém vai estranhar a cena, e se o sujeito disser que lê romances por prazer, ninguém vai achá-lo mentiroso. A sociedade brasileira incentiva o hábito de ler romances. Mas ela não incentiva o hábito de estudar matemática -- ao contrário.

De modo geral, o brasileiro acha que só estuda matemática quem é obrigado; além disso, uma pessoa só deve estudá-la sob a supervisão de um professor, isto é, só deve estudá-la dentro de uma escola. Como consequência, o brasileiro só estuda aquilo que o professor manda, e só estuda aquilo que dá tempo de estudar ao longo de um curso qualquer. Mas nem todo professor manda bem, e 100% dos cursos duram pouco. Em cinco anos de faculdade, por melhor que ela seja, só dá para estudar uns poucos tópicos da matemática, e mesmo assim de modo superficial.

Não existe saída, portanto: se alguém deseja saber matemática bem, terá de aprender a escolher livros (o que é difícil, pois à primeira vista eles se parecem muito) e a estudá-los sozinho. Se puder estudá-los em público, numa padaria ou num parque, tanto melhor. Quem sabe as crianças, vendo a cena, não crescem achando que estão autorizadas a se divertir com livros de matemáticas?

Márcio Simões"


Sob o potencial de ser incriminado por plágio, quero deixar claro que não é minha intenção lucrar com a cópia do conteúdo que apresentei. Meu objetivo é simplesmente compartilhar bom conteúdo e divulgar o bom trabalho que outras pessoas estão fazendo. Ademais, quem puder e se interessar, comprem a revista!

Até o próximo post!
Ronald Kaiser